Fim da guerra no Golfo? Ormuz e a desconfiança — TELMA BENJAMIM TAERO
A guerra no Golfo chegou oficialmente ao fim no dia 15 de Junho, após cerca de três meses e meio de confrontação directa entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. Iniciado a 28 de Fevereiro, o conflito foi marcado por bombardeamentos, ataques com mísseis e drones, ameaças ao Estreito de Ormuz, receios de uma escalada regional e uma intensa disputa pela narrativa internacional.
No mesmo dia em que foi anunciado o fim das hostilidades, foi igualmente divulgado um Memorando de Entendimento entre Washington e Teerão, cuja assinatura formal ficara prevista para o dia 19 de Junho.
À primeira vista, o cenário parecia animador. Os mísseis silenciaram-se, Ormuz reabriu-se ao comércio internacional e, então, a diplomacia parece ter alcançado o silenciar das armas e os objectivos que a guerra não alcançou. Num contexto em que o mundo receava uma crise energética de grandes proporções e uma expansão do conflito para outros pontos do Médio Oriente, o anúncio foi recebido com vistoso alívio.
Alívio, este que não durou mais de três noites. E voltaram as questões.
A assinatura de um Memorando de Entendimento é garantia de que brevemente haverá um acordo? O fim das hostilidades elimina as razões que conduziram à guerra? O programa nuclear iraniano deixa de ser uma preocupação? Israel sente-se mais seguro com o fim da confrontação directa entre os EUA e o Irão? Foram alcançados os objectivos que motivaram este conflito? E, afinal, quando uma guerra termina sem vencedores claros nem derrotados absolutos, o que realmente muda? Se houver falta de boa vontade entre as partes, não há-de permanecer a desconfiança?
Vejamos. Correlato ao Memorando de Entendimento anunciado a 15 de Junho, a assinatura formal estava inicialmente prevista para o dia 19. Contudo, a data passou sem que o documento fosse formalmente assinado pelas partes. Houve um ligeiro adiamento. Isto significa que o acordo fracassou? Não necessariamente. Mas recorda-nos que conflitos desta natureza raramente encontram soluções imediatas. Questões complexas exigem negociações igualmente complexas.
Podemos, então, recordar as negociações nucleares entre Washington e Teerão durante a administração Obama. Embora tenham culminado num entendimento histórico, foram necessários anos de contactos diplomáticos, aproximações graduais, avanços tímidos, recuos e concessões mútuas. A experiência demonstra que acordos duradouros dificilmente se constroem da noite para o dia.
Por essa razão, mais importante do que a própria assinatura do memorando é compreender aquilo que efectivamente está a ser negociado. Quais são os compromissos assumidos pelas partes? Quais é o objecto e os objectivos dessa negociação? E, sobretudo, será este o mesmo objecto e objectivos negociais que estiveram na origem do conflito?
A questão não é irrelevante. Com o decorrer dos conflitos há mudança de interesses, alteração de prioridades e são calculadas novas estratégias. O que motivou um conflito nem sempre é aquilo que conduz ao seu fim.
Se inicialmente a confrontação esteve associada às preocupações em torno do programa nuclear iraniano, não é impossível que as negociações actuais estejam igualmente centradas na estabilidade energética internacional, na segurança do Estreito de Ormuz ou até na necessidade de evitar uma nova escalada militar na região.
Aliás, os próprios mercados internacionais parecem reflectir esta incerteza. A 15 de Junho, quando foi anunciado o Memorando de Entendimento e a futura reabertura do Estreito de Ormuz, os preços internacionais do petróleo registaram quedas significativas. O sinal parecia claro: os mercados acreditavam que o risco estava a diminuir.
Porém, à medida que surgiram dúvidas em torno da assinatura formal e dos contornos efectivos do entendimento, o preço dos barris voltou a ser volátil. E agora, mais uma vez, Ormuz encontra-se bloqueado e o mercado não há-de ignorar este factor.
A esta altura, nenhum dado deve ser ignorado. Afinal, os mercados financeiros também fazem leituras políticas. Quando percebem estabilidade, tendem a acomodar-se. Quando retornam as dúvidas e as incertezas, retorna também o risco.
Talvez por isso o petróleo esteja a contar uma história interessante. A guerra terminou, mas os agentes económicos ainda procuram perceber se a paz anunciada será suficientemente sólida para resistir ao teste do tempo.
Outra questão que igualmente merece atenção está relacionada ao lugar que o programa nuclear iraniano ocupa neste novo contexto. Afinal, foi em torno dele que se construíram algumas das principais tensões entre o Irão, os Estados Unidos e Israel ao longo das últimas décadas. Contudo, permanece pouco claro se esta matéria continua a ocupar o centro das negociações ou se outras preocupações surgidas durante o conflito passaram a assumir maior relevância.
Basta olhar para os catorze pontos “de Wilson ou melhor, de Trump”, para notar a mudança de prioridades.
Ademais, o Memorando de Entendimento em questão culmina de contactos estabelecidos entre os EUA e o Irão. E Israel, um dos principais actores deste conflito, não tem espaço na mesa negocial. Isso alimenta dúvidas legítimas sobre a boa vontade das partes em chegar a um acordo. Haverá possibilidade de se alcançar uma paz duradoura enquanto um dos elementos essenciais para esta negociação não estiver presente?
Outrossim, Israel permanece em confronto directo com o Líbano (Hezbollah), apesar do aparente cessar-fogo, condição necessária para as negociações do fim da guerra. Não me parece lógico falar em fim da guerra enquanto uma das suas frentes permanece em confronto. Porque uma coisa é suspender a confrontação entre os EUA e o Irão. Outra, bem diferente, é eliminar as rivalidades estratégicas que continuam a marcar as relações entre Israel, Hezbollah e Irão.
Outra pergunta que não quer calar, e insisto em colocar é: qual era o objecto e quais eram os objectivos deste conflito? Olhemos para o objecto do conflito como sendo o programa nuclear iraniano e a segurança na região do Golfo.
Os objectivos do conflito são variados para cada parte conflituante. Israel pretendia limitar a capacidade nuclear iraniana, reduzir ameaças à sua segurança e enfraquecer grupos aliados do Irão. Os EUA pretendiam conter a expansão da influência iraniana na região, evitar uma crise energética global e manter a estabilidade regional. O Irão, por sua vez, pretendia defender a sua soberania, garantindo o seu espaço vital, assegurar a sobrevivência do regime e manter a sua capacidade de dissuasão.
E agora, qual é o objecto e quais são os objectivos dessa negociação? Essa dúvida é ainda mais complexa, apesar de parecer ter sido respondida pelos catorze pontos apresentados em uma página e meia.
O objecto negocial pode ser Ormuz, a segurança marítima ou as sanções. Os objectivos da negociação podem ser evitar uma escalada futura, reduzir dispêndios militares, garantir a estabilidade energética global ou estabilizar os mercados internacionais.
Então, ao que tudo indica, não permanecem o objecto e os objectivos iniciais. Houve uma mudança de interesses e posicionamentos estratégicos, certamente ditada pelos contornos deste conflito.
Outrossim, a guerra termina, o que é uma vitória para a diplomacia. Contudo, não foram estabelecidos os vencedores nem os perdedores da guerra. Nem todas as partes conflituantes participam da negociação. Ainda há uma frente de combate directo no Líbano. Não só, há também uma tentativa de controlo da narrativa internacional sobre o fim da guerra.
Portanto, se não há vencedores concretos nem perdedores absolutos, importa saber quem teve mais ganhos nesse jogo da galinha. Os EUA conseguiram reabrir uma rota estratégica para a economia mundial, porem sob elevados dispêndios financeiros e militares; Israel degradou capacidades militares iranianas, sem contudo, eliminar o regime que pretendia decapitar e no Líbano buscou mais uma frente de combate directo para somar ao Hamas; E o Irão resistiu a dois adversários gigantes, manteve ou fortaleceu o regime, conseguiu “isolar Israel” ao negociar directamente apenas com os EUA, aprendeu que Ormuz é um instrumento estratégico de dissuasão e pressão energética, poderá ganhar compensações pela destruição da guerra e futuramente cobrará pedágios sob forma de “taxas logísticas” numa rota que antes circulava sem esse encargo.
Em súmula, a guerra terminou, mas as razões que alimentaram a desconfiança permanecem. O Direito Internacional assenta no princípio do pacta sunt servanda, segundo o qual os compromissos assumidos devem ser observados de boa-fé.
Contudo, o Memorando de Entendimento representa apenas uma etapa de um processo negocial mais amplo. Entre os pontos nele previstos, a sua efectiva implementação e a eventual construção de um acordo duradouro, existe ainda um longo caminho.
Talvez por isso seja prudente olhar para este momento não como o fim definitivo de um conflito, mas como o início de uma paz que continua por negociar e por provar. Afinal, as armas silenciaram-se em Ormuz, mas a confiança parece estar longe de ser construída.
*Licenciada em Relações Internacionais e Diplomacia pela Universidade Joaquim Chissano
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 24 de Junho de 2026.
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