Abel Viriato transforma Muthali com espírito empreendedor

Na comunidade de Muthali, no distrito de Nampula, na província com o mesmo nome, no Norte de Moçambique, emerge uma história que ilustra como a combinação entre oportunidade, disciplina e visão pode redefinir destinos individuais e colectivos. Aos 28 anos, Abel Viriato (na foto de destaque), pai de três filhos, tornou-se um símbolo local de transformação económica e social.

Integrado há três anos no Projecto CASCADE, implementado pela CARE Moçambique em parceria com a GAIN – Global Alliance Improved Nutrition [Aliança Global para a Melhoria da Nutrição], Abel passou de beneficiário a protagonista do desenvolvimento comunitário. Através de práticas de poupança e educação financeira promovidas pela iniciativa, conseguiu investir numa moagem que hoje serve dezenas de famílias.

Numa região onde a agricultura de subsistência sustenta a maioria dos agregados familiares, a moagem tornou-se rapidamente um activo essencial. Milho, arroz, mapira e outros cereais — base alimentar local — passaram a ser processados dentro da própria comunidade. Antes, os residentes percorriam até 15 quilómetros para aceder a este serviço.

“Quando adquirimos a moagem, percebemos de imediato o seu impacto. Hoje, as pessoas já não precisam de viajar longas distâncias. Conseguem resolver tudo aqui”, afirma Abel.

O impacto é visível: redução de custos, poupança de tempo e melhoria nas condições de vida. A procura crescente pelo serviço revela não apenas a sua utilidade, mas também o potencial económico da iniciativa.

Contudo, o crescimento trouxe novos desafios. A capacidade da moagem já não responde plenamente à procura, levando Abel a sonhar mais alto. O próximo passo é ambicioso: instalar pelo menos mais três moageiras em Muthali.

“Quero expandir este serviço para que ninguém fique sem acesso. O nosso povo trabalha arduamente na machamba e precisa de melhores condições para transformar a sua produção. Menos sofrimento e mais oportunidades — é isso que eu quero para a minha comunidade”, sublinha.

Para além do impacto económico, a iniciativa contribui para a segurança alimentar e nutricional. Com acesso facilitado ao processamento de alimentos, as famílias conseguem diversificar a dieta e reduzir riscos associados à desnutrição, um problema ainda presente em várias zonas rurais do país.

Os benefícios também se reflectem na vida pessoal do jovem empreendedor. Com uma poupança semanal de 500 meticais, Abel conseguiu reforçar a estabilidade financeira da sua família, adquirir uma motorizada e melhorar significativamente as condições de vida no seu lar.

“Antes enfrentávamos muitas limitações. Hoje consigo garantir o básico para a minha família e ainda pensar no futuro. A motorizada facilitou muito o meu trabalho e é uma conquista que parecia distante há poucos anos”, recorda.

Abel não hesita em reconhecer o papel determinante do Projecto CASCADE no seu percurso. Para ele, o acesso a conhecimento e ferramentas financeiras foi o ponto de viragem.

“Este projecto mudou a minha vida. Deu-me orientação e confiança para investir. Hoje acredito que qualquer pessoa, com disciplina e aproveitando as oportunidades certas, pode transformar a sua realidade”, afirma.

Na comunidade, a moagem representa mais do que um negócio. É um símbolo de autonomia, progresso e esperança. Ao reduzir barreiras e estimular a economia local, a iniciativa está a inspirar outros residentes a adotarem práticas de poupança e empreendedorismo.

A história de Abel Viriato evidencia um ponto crucial: o desenvolvimento sustentável começa muitas vezes com pequenas decisões — poupar, investir e acreditar. Quando essas ações encontram apoio estruturado, os resultados multiplicam-se e beneficiam toda a comunidade.

Determinando-se a continuar a crescer, Abel mantém o foco não apenas no seu sucesso individual, mas no progresso coletivo.

“O meu sonho não termina aqui. Quero ver a minha comunidade a prosperar, com mais negócios, mais oportunidades e melhores condições de vida. Quando a comunidade cresce, todos nós crescemos juntos”, conclui.

©ELINA ECIATE (Texto e fotos)

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 29 de Junho de 2026.

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