O espírito mau que obrigou toda a família a andar nua — LEANDRO PAUL

Quando a morte bate muitas vezes à mesma porta, há quem procure explicações na medicina. Outros procuram-nas na igreja. Mas há também quem acabe por acreditar que existe um mal invisível que se alimenta da desgraça dos vivos.

Foi isso que aconteceu à família de Ananias, residente em Salamanga.

Tudo começou com uma morte. Uma tia. Depois veio outra. Um primo. Poucos meses mais tarde morreu um sobrinho.

A casa, que antes era lugar de risos e refeições partilhadas, transformou-se num lugar onde cada amanhecer era recebido com medo.

As mulheres deixaram de cantar enquanto preparavam a comida. A televisão ficou desligada. As crianças já não brincavam no quintal. Os homens falavam em voz baixa, como se qualquer palavra pudesse despertar aquilo que acreditavam estar escondido entre as sombras.

– Isto não é normal – repetia a vizinhança.

Cada pessoa tinha uma explicação diferente. Uns falavam de inveja. Outros de feitiço. Mas uma ideia começou a ganhar força.

Era o espírito mau.

Ananias resistiu durante semanas. Era um homem trabalhador, habituado a resolver os problemas com as próprias mãos.

Ainda procurou ajuda na igreja, onde lhe disseram que confiasse em Deus e não alimentasse o medo. Muito menos superstições.

A princípio quis acreditar.

Mas quando outra doença apareceu dentro da família, do seu filho mais novo, a esperança começou a desfazer-se.

Foi então que alguém lhe falou de um famoso curandeiro de Mambone.

O velho ouviu toda a história sem interromper.

Quando Ananias terminou, o curandeiro permaneceu alguns segundos calado, olhando para o chão.

Depois levantou lentamente a cabeça.

– O espírito quer voltar para casa!

A frase caiu como uma pedra.

Segundo explicou, a alma de um antigo pastor de gado da família vagueava perdida, zangada por não ter regressado ao lugar onde vivera. Enquanto não fosse conduzida de volta, continuaria a reclamar vidas.

Havia solução. Mas não seria fácil.

O ritual exigia dois cabritos, sacos de milho, dinheiro, uma galinha preta e uma caminhada nocturna pelas matas de Salamanga.

A família aceitou.

Quando o desespero fala mais alto do que a razão, quase tudo parece fazer sentido.

Na noite marcada partiram os sete. O curandeiro seguia à frente.

Atrás dele caminhava Ananias, segurando a corda que prendia os dois cabritos.

A mulher vinha logo depois, com a galinha preta apertada contra o peito.

As crianças caminhavam em silêncio. Ninguém ousava fazer perguntas.

Chegaram às matas quando o sol já desaparecera completamente.

O silêncio era tão profundo que se ouviam apenas os passos sobre as folhas secas e a respiração cansada dos cabritos.

O curandeiro mandou parar.

Retirou pequenos embrulhos do bolso, espalhou um pó escuro sobre os animais e começou a murmurar palavras que ninguém compreendia.

Mandou todos despirem-se.

Disse que o espírito mau reconheceria apenas pessoas sem roupa, livres das impurezas do mundo.

A vergonha foi vencida pelo medo.

Pouco depois, sete pessoas caminhavam completamente nuas no meio da mata.

O frio da noite fazia tremer as crianças.

Mas ninguém reclamava. Continuaram. Andaram durante horas e horas.

O curandeiro dizia que já faltava pouco. Sempre mais um pouco.

Sempre mais alguns passos. Mas nunca mais chegavam.

Até que, de repente, ouviu-se um estalido no mato.

Os cabritos assustaram-se.

Num só impulso romperam as cordas e desapareceram na escuridão.

– Agarrem-nos! – gritou o curandeiro.

Instintivamente todos correram. Cada um seguiu numa direcção.

Em poucos segundos, a família deixou de se ver.

Só restavam vozes perdidas na noite.

– Mãe!

– Pai!

– Estou aqui!

Mas ninguém sabia onde estava o outro. O medo transformou-se em pânico.

Ananias tropeçou numa raiz e caiu. Levantou-se coberto de terra.

Chamou pelos filhos. Nenhuma resposta. A mulher chorava algures na escuridão.

As crianças gritavam. Foi uma noite interminável.

Quando finalmente a primeira luz da manhã rompeu o horizonte, encontraram-se, um a um, completamente exaustos. Nus.

Estavam vivos. Mas os cabritos tinham desaparecido. As roupas também.

Procuraram durante horas. Nada.

Voltaram para casa apenas com ramos e folhas a tentar esconder partes do corpo.

Ao atravessarem uma pequena povoação, as pessoas interromperam o que estavam a fazer.

Ninguém falou.

Só olhavam.

Alguns riam discretamente.

Outros faziam o sinal da cruz.

As crianças escondiam-se atrás da mãe.

Ananias baixou a cabeça.

Naquele instante percebeu que carregava uma vergonha maior do que qualquer feitiço.

Dias depois, sentado no quintal da sua casa, voltou a pensar em tudo o que tinha acontecido.

O espírito mau não desaparecera.

Mas também não aparecera.

A única coisa que a viagem lhes trouxera fora o medo, o ridículo e um silêncio ainda maior dentro daquela família.

Foi então que tomou uma decisão.

Nunca mais pisaria a casa de um curandeiro.

Voltou à igreja onde meses antes lhe tinham pedido paciência e fé.

Procurou o centro de saúde para tratar os doentes.

E, pela primeira vez em muito tempo, começou a aceitar uma verdade difícil.

Nem todas as tragédias têm um culpado invisível.

Há dores que pertencem simplesmente à vida.

E há medos que só continuam a existir enquanto alguém os alimenta.

Naquela família, a longa caminhada de Salamanga não expulsou espírito nenhum.

Mas marcou para sempre o dia em que sete pessoas atravessaram a noite completamente nuas, perseguindo um fantasma que nunca chegou a aparecer.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 29 de Junho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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