A galinha coxa — LEANDRO PAUL

Quando Dona Marcelina chegou à casa da neta trazia apenas duas malas gastas, um saco de milho e uma galinha coxa.

Ninguém imaginava que aquele animal acabaria por mudar a vida de uma família inteira.

Muito menos que acabaria por matar uma mulher.

Naquele tempo, Laurinda já tinha perdido a conta às noites passadas em lágrimas.

Casara-se jovem.

Casara-se apaixonada.

Casara-se acreditando que o amor resolveria tudo.

Mas os anos foram passando.

Primeiro um.

Depois dois.

Depois cinco.

E nenhuma criança apareceu.

No bairro começaram os comentários.

Os mais discretos limitavam-se a perguntar quando viria o primeiro filho.

Os mais cruéis já tinham encontrado uma explicação.

Há qualquer coisa errada naquela casa.

Laurinda fingia não ouvir.

Mas ouvia.

O marido também.

E sofria em silêncio.

O problema transformou-se lentamente numa ferida aberta dentro da família.

Consultaram médicos. Consultaram enfermeiros. Consultaram curandeiros.

Tomaram comprimidos. Beberam raízes. Fizeram promessas.

Gastaram dinheiro que não tinham. Nada resultava.

Com o passar do tempo, o casamento começou a mudar.

As discussões tornaram-se mais frequentes. As suspeitas também.

A certa altura, o marido chegou a acusá-la de ter provocado um aborto antes do casamento.

Laurinda respondeu acusando-o de ser incapaz de lhe dar filhos.

A casa transformou-se num campo de batalha.

Foi nesse ambiente que decidiram passar umas semanas em Xai-Xai, na casa da avó paterna de Laurinda.

Talvez a distância ajudasse.

Talvez o descanso resolvesse aquilo que a cidade não conseguia curar.

E foi lá que aconteceu o milagre. Laurinda começou a sentir enjoos.

Depois vieram os vómitos. Depois o atraso menstrual.

Quando o resultado dos exames chegou, ninguém conseguiu conter a alegria.

Laurinda estava grávida. Pela primeira vez. Ao fim de tantos anos.

A notícia espalhou-se pela família como fogo em capim seco.

Telefonemas. Abraços. Lágrimas. Promessas. Todos celebravam. Todos.

Ou quase todos.

Porque a felicidade dos outros costuma incomodar certas pessoas.

Principalmente aquelas que vivem da desconfiança.

Quando a gravidez entrou no oitavo mês, Dona Marcelina apareceu vinda de Gaza.

Tinha oitenta e três anos. Era mãe do pai de Laurinda.

Chegou cansada da viagem. Mas feliz. Queria conhecer a futura bisneta.

Entre os presentes que trazia estava uma galinha. Uma galinha diferente.

Tinha uma das patas deformada. Arrastava-se ligeiramente ao caminhar.

As crianças do bairro divertiam-se a observá-la.

Os adultos pouco ligaram. Era apenas uma galinha. Nada mais.

Ou pelo menos parecia.

Dona Marcelina deixou os presentes e regressou à sua vida. O tempo passou.

Finalmente chegou o dia do parto. Toda a família aguardava notícias no hospital.

As horas pareciam não passar. Até que o médico saiu.

O sorriso que trazia no rosto desapareceu rapidamente. Algo estava errado.

A bebé nascera viva. Mas apresentava uma deformação numa das pernas.

O silêncio caiu sobre a família. Um silêncio pesado. Incapaz de ser quebrado.

Laurinda chorou. O marido ficou imóvel. Os familiares procuravam explicações.

E quando as explicações não aparecem, surgem os culpados.

Alguém lembrou-se da galinha. Outro recordou a pata deformada.

Uma terceira pessoa falou de feitiços. Uma quarta jurou conhecer casos semelhantes.

Ao fim de poucas horas, aquilo que era apenas uma coincidência transformou-se numa certeza.

A velha tinha feito alguma coisa. A velha era responsável. A velha trouxera a desgraça.

Ninguém sabia exactamente como. Ninguém apresentava provas.

Mas isso pouco importava. O medo raramente exige provas.

A notícia espalhou-se pelo bairro. Alguns acreditaram. Outros fingiram acreditar.

Outros ainda aproveitaram para alimentar histórias antigas.

Dona Marcelina passou a ser vista como feiticeira.

Uma mulher idosa. Frágil. Quase sem forças para caminhar.

Mas, segundo os rumores, poderosa o suficiente para deformar uma criança ainda dentro do ventre da mãe.

Laurinda tentou inicialmente ignorar os comentários.

Mas a dor de ver a filha sofrer era demasiado grande.

A cada consulta. A cada tratamento. A cada olhar de pena. A revolta crescia.

Até que uma noite tudo explodiu. Vários familiares apareceram à porta da velha.

Ninguém sabe ao certo quem deu o primeiro empurrão.

Nem quem lançou a primeira acusação.

Sabe-se apenas que a multidão chegou carregada de raiva.

E quando a raiva se instala numa multidão, deixa de pertencer a alguém.

Passa a pertencer a todos. Dona Marcelina tentou defender-se.

Jurou que nunca fizera mal a ninguém. Jurou que amava a bisneta.

Jurou que a galinha era apenas uma galinha. Mas ninguém queria ouvir.

Os gritos abafaram as explicações. As acusações abafaram a verdade.

Quando tudo terminou, a velha estava gravemente ferida.

Foi transportada para o hospital. Ali permaneceu durante vários dias.

Entre a vida e a morte.

A família começou lentamente a perceber a dimensão do que tinha feito.

A bebé continuava doente. Nada mudara. Nenhum feitiço desaparecera.

Nenhuma maldição fora quebrada. E, aos poucos, começaram a surgir dúvidas.

Talvez tivessem cometido um erro. Talvez a deformação tivesse uma explicação médica.

Talvez aquela coincidência nunca tivesse passado disso mesmo.

Uma coincidência. Mas já era tarde. Muito tarde.

Numa manhã cinzenta, Dona Marcelina morreu. Tinha oitenta e três anos.

Morreu sem compreender porque as pessoas que mais amava decidiram transformá-la num monstro.

O funeral decorreu num ambiente pesado. Poucos falavam.

Muitos evitavam olhar-se nos olhos. O peso da culpa circulava entre todos.

Meses depois, os médicos explicariam que a condição da criança nada tinha a ver com feitiçaria.

Era uma malformação congénita.

Uma situação rara, mas perfeitamente explicável pela ciência.

A notícia trouxe alívio. Mas não trouxe perdão.

Porque certas verdades chegam demasiado tarde.

A menina cresceu. Aprendeu a caminhar. Aprendeu a correr.

Aprendeu a viver com as marcas que o destino lhe deixara.

Já os adultos carregaram outras marcas. Marcas invisíveis.

Mais difíceis de curar.

E durante muitos anos, sempre que alguém mencionava a velha galinha coxa, um silêncio desconfortável caía sobre a família.

Porque todos sabiam que Dona Marcelina não tinha sido vítima de feitiços.

Tinha sido vítima de algo muito mais perigoso.

A ignorância.

E o medo que nasce dela.

LEANDRO PAUL *

* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias

Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 22 de Junho de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.

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