O molwene que regressou tarde a casa — LEANDRO PAUL
Manito tinha apenas nove anos quando, numa manhã qualquer, saiu de casa para a escola e nunca mais regressou.
Procuraram-no pelos bairros vizinhos, perguntaram nos mercados, nas esquadras, nos hospitais e até nas igrejas.
O tempo passou e a esperança foi-se gastando como a sola dos sapatos da mãe, Laura, que continuava a procurá-lo todos os dias.
Pouco depois da morte do marido, a casa mergulhara num silêncio pesado.
A viuvez trouxera a pobreza. A pobreza trouxera a fome. E a fome empurrara Manito para as ruas.
Durante quase um ano, viveu como um molwene (menino de ninguém) entre outros sem família, dormindo onde encontrava abrigo, pedindo restos de comida, lavando vidros dos carros e aprendendo depressa as regras cruéis da sobrevivência.
Laura nunca deixou de o procurar.
De vez em quando alguém dizia tê-lo visto na baixa de Maputo, junto dos contentores do lixo.
Outras vezes juravam que passara a noite perto do cinema Gil Vicente, enrolado em papelões.
Quando ela chegava, já era tarde. O menino havia desaparecido outra vez.
Até que, numa tarde de Novembro, ouviu baterem à porta.
Abriu.
Do outro lado estava Manito.
Mais magro. Mais alto. Mais escuro.
Com os olhos de quem envelhecera cedo demais.
A mãe abraçou-o sem fazer perguntas.
Naquela noite, preparou-lhe a melhor refeição que conseguiu.
O menino comeu em silêncio, como se tivesse medo de que o prato lhe fosse retirado.
Nos dias seguintes tentou voltar à escola.
A fardamento já não lhe servia. Mesmo assim, fez um esforço para contentar a mãe.
Mas já não consegui se adaptar. Fugia das aulas. Mentia à mãe.
Preferia passar o dia inteiro a vaguear pelas ruas com os antigos companheiros.
Laura ralhava, chorava, aconselhava. Nada resultava.
Pouco depois começaram as dores.
Primeiro, uma ligeira indisposição.
Depois, a barriga começou a inchar.
O menino dizia sentir um peso estranho dentro do corpo.
As dores tornaram-se tão fortes que já mal conseguia andar.
Na madrugada do terceiro dia, Laura ouviu um ruído no quintal.
Correu para fora.
Encontrou Manito estendido no chão. Respirava com dificuldade.
A barriga estava anormalmente inchada. Chamaram ajuda.
Mas já era tarde.
O menino morreu ali mesmo, diante da casa onde finalmente regressara, nos braços da mãe.
Um enfermeiro vizinho, que por vezes passava receitas médicas no bairro, falou numa possível intoxicação.
Disse que poderia ter ingerido substâncias tóxicas durante o tempo em que viveu na rua.
Era uma explicação plausível.
Mas não era aquela em que Laura acreditava.
Sentada diante do pequeno caixão, repetia apenas uma frase:
– Foi o mesmo mal que levou o pai dele.
Na vizinhança, a morte ganhou rapidamente outra interpretação.
Uns falavam de feitiço. Outros diziam que um espírito perseguia aquela família desde a morte do pai.
Houve quem aconselhasse Laura a procurar curandeiros para “devolver o demónio” à terra dos antepassados.
Ela ouviu tudo em silêncio. Talvez porque, no fundo, soubesse que nenhuma explicação devolveria o filho.
Meses depois, quando alguém perguntava por Manito, Laura deixava sempre escapar a mesma tristeza.
– O meu filho conseguiu encontrar o caminho de casa…
Fazia então uma pausa longa, olhando para o quintal vazio e acrescentava:
– …mas chegou tarde demais.
E foi essa a maior tragédia daquela família.
Não foi apenas a morte de um menino.
Foi o facto de ele ter regressado precisamente quando parecia haver uma oportunidade de recomeçar.
O destino deixou-o voltar apenas para que a mãe pudesse abraçá-lo uma última vez, antes de o perder para sempre.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 03 de Agosto de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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