A difícil opção da sina do Norte

A crescente defesa de um diálogo inclusivo para pôr termo à insurgência em Cabo Delgado revela uma mudança subtil, mas significativa, no discurso político e estratégico em Moçambique.

Durante anos, a resposta oficial assentou quase exclusivamente na via militar. Hoje, ainda que sem uma posição formal clara, multiplicam-se sinais de que essa abordagem poderá estar a atingir os seus limites.

Duas intervenções recentes – uma do jornalista moçambicano Borges Nhamirre, no Instituto de Estudos de Segurança (ISS), e outra de três especialistas [Salvador Forquilha, João Pereia e Emílio Zeca] ligados à recém-criada Fundação Tibverane [com fundos suíços] – convergem numa ideia central: sem diálogo, dificilmente haverá paz duradoura em Cabo Delgado.

“É possível encetar um diálogo e negociações” com os insurgentes, defendem os especialistas.

A premissa não é nova, mas ganha agora maior densidade num contexto em que o conflito se prolonga sem horizonte de resolução.

A análise proposta por estes especialistas aponta para causas estruturais que não foram devidamente enfrentadas: exclusão socioeconómica, desemprego juvenil, marginalização de comunidades muçulmanas e denúncias recorrentes de abusos por parte das forças de segurança.

A estas dimensões soma-se uma crítica persistente à excessiva centralização do poder em Maputo, frequentemente apontada como um obstáculo à governação sensível às realidades locais.

O argumento é, em grande medida, convincente. Experiências comparadas em conflitos assimétricos sugerem que respostas exclusivamente securitárias tendem a falhar quando ignoram os factores políticos e sociais subjacentes.

No entanto, reconhecer a necessidade de diálogo não equivale a torná-lo viável. Segundo Nhamirre, actualmente “não existe qualquer diálogo”, nem mesmo contactos informais com os insurgentes, o que evidencia um bloqueio político ainda significativo.

Ainda assim, há indícios de reconfiguração interna no poder.

Alguns analistas entendem que a ascensão do Presidente Daniel Francisco Chapo, oriundo de Sofala, parece ter alterado o equilíbrio dentro do partido Frelimo, reduzindo a influência da elite maconde associada ao antigo Presidente Filipe Jacinto Nyusi, cuja estratégia privilegiava a solução militar (Redactor N° 6900, págs. 1 e 2).

Esta redistribuição de poder pode abrir espaço para novas abordagens, embora tal hipótese permaneça, por ora, especulativa.

No terreno, a evolução do conflito também sugere uma transformação relevante. Os insurgentes abandonaram práticas de violência extrema que marcaram o início da guerra (Redactor N ° 7033, págs. 1 e 2 e Redactor N° 7346, págs. 1 e 2 e), adoptando estratégias típicas de guerrilha orientadas para conquistar apoio local.

Nos dias que correm, os activistas presumivelmente associados ao Al Sunna Wa Jammah, localmente chamado de Al Shabaab, optam mais pela extorsão: tomam reféns, geralmente nas aldeias e/ou nas rodovias, e depois reclamam resgate para a sua soltura.

Em paralelo, há relatos de populações deslocadas que regressam às suas zonas de origem (Redactor N° 6452, pág. 3), não necessariamente por confiança no Estado, mas por desconfiança em relação às forças governamentais e pelas más condições nos centros de acolhimento.

Este dado é particularmente preocupante: quando o Estado aparenta perder legitimidade junto das populações que deveria proteger, a sua posição negocial enfraquece consideravelmente.

A nível internacional, cresce a percepção de que o conflito será prolongado (Redactor N° 6448, págs. 1 e 2). A decisão de concentrar o projecto de gás natural na península de Afungi sob um modelo de “fortaleza”, isolado do território circundante, é reveladora dessa expectativa.

Do mesmo modo, o adiamento de investimentos estratégicos e a suspensão de apoio à reconstrução por parte de parceiros como o Japão sinalizam uma perda de confiança na estabilização a curto prazo.

Neste contexto, a insistência no diálogo deixa de ser apenas uma opção política e passa a configurar-se como uma necessidade estratégica. Contudo, a forma como esse diálogo poderá ser conduzido levanta questões complexas: com quem negociar, em que termos e sob que garantias? A fragmentação dos actores insurgentes e a ausência de canais de comunicação dificultam qualquer iniciativa nesse sentido.

A experiência internacional oferece algumas pistas. O envolvimento de mediadores experientes, como Jonathan Powell – figura central no processo de paz da Irlanda do Norte – é apontado como uma possível via de apoio técnico. Mais do que soluções importadas, o que está em causa é a capacidade de adaptar metodologias de negociação a um contexto local profundamente marcado por desigualdades históricas e desconfiança institucional.

Importa também recordar que Moçambique já percorreu este caminho. As negociações com a Renamo, no início da década de 1990, demonstraram que mesmo conflitos aparentemente insolúveis podem encontrar saída através do diálogo. À época, actores antes classificados como “bandidos armados” tornaram-se interlocutores políticos legítimos.

Essa memória histórica deveria servir menos como analogia simplista e mais como lembrete de que a paz exige, frequentemente, escolhas politicamente incómodas.

Em última análise, o debate actual sobre Cabo Delgado parece deslocar-se de uma lógica de vitória militar para uma lógica de gestão política do conflito.

Essa transição, embora ainda incipiente, poderá ser determinante. Persistir numa estratégia que não tem produzido resultados sustentáveis pode revelar-se mais arriscado do que explorar, com cautela, vias de negociação.

O verdadeiro desafio não é reconhecer a importância do diálogo, mas criar as condições políticas, institucionais e de confiança que o tornem possível. Sem isso, o risco é que Cabo Delgado permaneça, por tempo indeterminado, num ciclo de violência de baixa intensidade, com elevados custos humanos e económicos para o país.

©Redactor

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