Achados e partidos— STÉLVIO MARTINS
Eram 11 da manhã quando chegou à minha casa.
– Quero falar contigo! — Disse com um olhar que tentava, a todo custo, segurar uma lágrima teimosa. Tentava embalar emoções no porão do coração, em vão, os seus lábios que me eram íntimos e as suas mãos cujas carícias me eram familiares chacoalhavam como cabaças nos pés dos mapicos.
— Sou todo ouvidos. Respondi, seco, arrogante, enquanto disfarçava a preocupação que já poluía aqueles ares.
— Disseram-me que te viram com outra rapariga e que me tens sido infiel! – Despejou a frase como quem tira da cabeça a lata de água.
— Quem foi que te disse? – Perguntei sem fazer caso.
— Foi a Joana! – Respondeu sem hesitar.
— Tu sabes que a Joana inventa sempre histórias, não é a primeira vez que me vens com estas perguntas, e eu já disse que não quero passar a vida a justificar coisas. Respondi autoritariamente.
— Deves achar que sou burra! Gritou. Assustei-me, não era seu feitio andar aos gritos.
— Eu vi as mensagens que tu enviaste! Xeque-mate, tinha sido apanhado, de nada me valia mais uma mentira.
— Então é isso, já sabes! Tudo o que te disseram é verdade. Completei, friamente …
Senti as suas mãos macias chocarem-se contra as minhas magras bochechas… naquele momento aquelas palmas pareciam rochas, distintas das caricias a que me tinha acostumado.
— Estupido! No fundo, sabia que não prestavas, mas quis acreditar que comigo seria diferente. — Disse, desta vez não conseguiu conter as lágrimas, soluçava.
— Porquê? Perguntou-me
— Porquê, você decidiu fazer isso, justo comigo? Olhava intensamente para mim com uma tristeza-raivosa.
Não lhe respondi à pergunta, me mantive quieto e calado, nada mais havia a dizer, a verdade estava nua, crua e mal-vestida diante de mim. Havia partido o coração dela, naquele momento era um idiota, sem ideias.
Arrastei-a para o quarto, tentei mantê-la calma e convencê-la a conversar… debalde. O que se seguiu foi um episódio de quem procurava lavar a alma, e se calhar por nunca ter lhe contado o valor de tal coisa, pode ser que sequer sinta a sua alma limpa.
Levantou-se da cama, foi em direcção à minha secretária, alcançou o meu computador e jogou-o no chão, com toda a força que os seus partidos sentimentos e fracos braços conseguiram naquele momento.
Depois da sua partida, juntei os cacos do que me sobrava do computador, partido por partido, um coração partido, por um computador partido.
E foi assim que se partiu o final da estória e o melhor texto que alguma vez escrevi na vida, do qual nenhum outro olho foi testemunha e se foi assim, o final das crónicas da cela (vide Redactor N° 7365, pág. 5)
E é desta forma que vamos seguindo, ela a reconstruir o seu coração e eu a reconstruir e juntar nos pedaços da imaginação, uma estória.
E foi assim que se partiu o final da estória e o melhor texto que alguma vez escrevi na vida, do qual nenhum outro olho foi testemunha e se foi assim, o final das crónicas da cela.
* Um humilde silencista
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 29 de Julho de 2026, na rubrica OPINIÃO.
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