Cibercrimes já em destaque na agenda

Moçambique aparece destacado entre os países mais visados por ciberataques, num cenário em que o sector bancário e os meios de pagamento electrónicos figuram entre os alvos mais expostos, segundo alertas recentes de especialistas e entidades do sistema financeiro.

Num debate realizado esta quarta-feira (22), em Maputo, um especialista de um banco comercial activo em Moçambique afirmou que o país estava, nesse dia, na 14.ª posição entre os alvos visados, num quadro de crescente sofisticação das burlas digitais.

Estes dados vêm corroborar com dados anteriores recolhidos pelo jornal Redactor de fontes habilitadas.

De acordo com a Associação Moçambicana de Bancos, o país regista pelo menos 1,5 milhão de ataques cibernéticos por mês, com impacto directo nas perdas financeiras, na confiança dos clientes e na continuidade das operações bancárias.

No mesmo período, o Banco de Moçambique informou que, nos primeiros cinco meses deste 2026, foram registadas cerca de oito mil fraudes, que causaram perdas nominais superiores a 112 milhões de meticais.

Os dados disponíveis mostram que os meios de pagamento electrónico — sobretudo carteiras móveis, cartões bancários e internet banking — concentram a maior parte das ocorrências. Entre os métodos mais usados estão mensagens fraudulentas, pedidos de transferência de valores e esquemas de engenharia social que exploram a falta de literacia digital dos utilizadores.

Em termos de sectores mais afectados, a banca surge ao lado da administração pública, saúde, seguros, transportes e telecomunicações, áreas consideradas preferenciais para os atacantes devido ao valor dos dados e à dependência de sistemas digitais.

Especialistas ouvidos recentemente sublinharam que a cibercriminalidade já não se limita ao roubo de dinheiro. Hoje em dia ela inclui também dados, interrupção de serviços, extorsão e acesso ilegítimo a informação sensível.

Quanto à origem dos ataques, as autoridades e analistas referem que muitos incidentes têm origem fora do país, embora nem sempre seja possível identificar com precisão o ponto de partida real, devido ao uso de redes intermédias e técnicas de ocultação.

No aludido debate, o Vietname foi citado como um dos principais “ninhos” de hackers, numa referência à presença de redes criminosas e infra-estruturas usadas para lançar campanhas de fraude digital.

Moçambique já enfrentou também ataques de grande visibilidade. O mais mediático ocorreu em Fevereiro de 2022, quando vários sites de instituições públicas ficaram temporariamente indisponíveis e foram alvo de intrusão digital.

Entre as entidades atingidas estiveram a Administração Nacional de Estradas, o Instituto Nacional de Gestão de Desastres, a Administração Regional de Águas do Sul e o Instituto Nacional de Transportes Terrestres. As autoridades disseram depois que os serviços foram restabelecidos e não confirmaram perda de dados.

No caso do sector financeiro, os impactos mais conhecidos incluem perdas monetárias, interrupções operacionais, reforço de custos com segurança, investigação de incidentes e erosão da confiança do público. O Banco de Moçambique já tem vindo a apertar a supervisão, exigindo reporte de incidentes tecnológicos e cibernéticos e maior resiliência dos operadores do sistema de pagamentos.

Em Moçambique, o tema ganhou peso estratégico nas políticas públicas. O Governo aprovou a Política e a Estratégia Nacional de Segurança Cibernética, que define pilares como protecção de infra-estruturas críticas, quadro legal, desenvolvimento de capacidades e cultura de segurança, e aponta também a criação de mecanismos de resposta a incidentes e de coordenação multissectorial.

No sector económico, a importância é ainda mais evidente na banca e nos meios de pagamento. A expansão do mobile money, do internet banking e das transacções electrónicas aumenta a eficiência e a inclusão financeira, mas também amplia a superfície de ataque para fraude, roubo de credenciais e interrupções operacionais.

É por isso que o Banco de Moçambique tem reforçado a supervisão e o reporte de incidentes tecnológicos e cibernéticos

A cibersegurança também influencia o investimento e a competitividade. Empresas e investidores tendem a confiar mais em ambientes digitais onde há regras claras, resposta rápida a incidentes e protecção de dados, o que reduz riscos reputacionais e custos ocultos associados a ataques.

No caso moçambicano, esse factor é decisivo para sectores como finanças, telecomunicações, saúde, transportes e administração pública, todos dependentes de sistemas digitais cada vez mais interligados.

©Redactor

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 24 de Junlho de 2026.

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