Marido suicida-se na casa do rival — LEANDRO PAUL
No Bairro das Mahotas, ainda hoje há quem baixe a voz quando fala daquela noite.
Não por respeito.
Por medo da lembrança.
Porque certas mortes não acabam quando o corpo é enterrado. Continuam penduradas na memória das pessoas, como roupa esquecida num quintal abandonado.
António N. tinha 28 anos e um temperamento difícil. Carpinteiro de profissão, homem de poucas amizades e muitos silêncios, carregava dentro de si um ciúme que crescia como doença antiga.
Os vizinhos conheciam-lhe os acessos de raiva.
Conheciam também a esposa, Rosária, uma mulher bonita, cansada e cada vez mais distante do marido.
Nos últimos meses, já quase não se viam juntos na rua.
E, num bairro onde as paredes são finas e os olhos nunca dormem, o afastamento dos dois começou a transformar-se em conversa de esquina.
– Ela já não aguenta aquele homem.
– Ele bebe demais.
– Vai acabar mal.
Acabou.
Naquela noite, António apareceu inesperadamente na casa de Samuel C., um homem solteiro, conhecido por viver sozinho e receber poucas visitas.
Ou pelo menos era isso que parecia.
Segundo se contou depois, António já desconfiava havia muito tempo que Rosária o traía.
Seguia-lhe os passos, fazia perguntas aos vizinhos, aparecia em casa sem avisar. Tornara-se prisioneiro da ideia de que estava a ser humilhado.
E o ciúme, quando cresce sem controlo, deixa de procurar verdade.
Passa apenas a procurar confirmação.
António bateu à porta pouco depois das nove da noite.
Lá dentro, o silêncio demorou demasiado tempo.
Foi isso que o convenceu.
Quando Samuel finalmente abriu a porta, António empurrou-o violentamente e entrou.
Chamou pela esposa.
Ninguém respondeu.
Mas havia sinais.
Uma capulana caída perto da cama.
Sandálias femininas encostadas à parede.
E o cheiro abafado de duas pessoas que tinham estado demasiado próximas.
Rosária apareceu momentos depois, enrolada num lençol, o rosto cheio de susto.
Foi o suficiente.
Os gritos ouviram-se em várias casas da rua.
Samuel tentou explicar.
Rosária chorava.
António andava de um lado para o outro, completamente descontrolado.
– Traíram-me dentro da minha própria casa! – Gritava, embora aquela nem fosse a sua casa.
Os vizinhos começaram a aproximar-se devagar, sem coragem de entrar.
Porque discussões de casal atraem curiosidade.
Mas também assustam.
Depois, algo mudou.
Subitamente.
Como se toda a força tivesse saído do corpo dele de uma só vez.
António ficou quieto.
Demasiado quieto.
Olhou para Rosária durante alguns segundos.
E perguntou, numa voz baixa:
– Então era verdade?
Rosária não respondeu.
Talvez porque não havia resposta possível.
Talvez porque já era tarde.
Samuel aproveitou o silêncio para sair devagar do quarto. Pensou em fugir. Pensou em chamar ajuda. Mas antes que conseguisse decidir, António trancou-se sozinho dentro da casa.
Os vizinhos começaram a bater à porta.
Ninguém atendia.
Chamaram pelo nome dele.
Nada.
Foi Rosária quem começou a gritar primeiro.
Um grito tão agudo que fez correr toda a vizinhança.
Quando finalmente arrombaram a porta, António estava pendurado numa corda improvisada, presa numa das vigas do tecto.
Ainda balançava.
Durante alguns segundos, ninguém se mexeu.
A morte, quando aparece assim perto, costuma paralisar primeiro.
Depois vieram os choros.
As perguntas.
Os insultos.
Houve quem culpasse Rosária.
Houve quem culpasse Samuel.
E houve quem dissesse que António já vinha morrendo havia muito tempo, devorado por uma tristeza que ninguém quis ver.
No funeral, Rosária permaneceu quase sempre calada.
Não chorava alto.
Não desmaiava.
Limitava-se a olhar para o chão, como quem procura ali alguma explicação.
Algumas mulheres aproximaram-se dela.
Outras afastaram-se.
Porque o sofrimento das viúvas nem sempre desperta compaixão.
Às vezes desperta julgamento.
Samuel deixou o bairro poucos dias depois.
Diziam que tinha medo de represálias.
Outros garantiam que partira por vergonha.
Ninguém soube ao certo.
Quanto a Rosária, continuou nas Mahotas.
Mas nunca mais voltou a ser vista a rir como antes.
Porque há culpas que não precisam de tribunal.
Vivem dentro da pessoa.
Crescem em silêncio.
E regressam todas as noites, precisamente na hora em que alguém bate à porta.
* Jornalista, jurista, docente universitário, empresário e contador de estórias
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 18 de Maio de 2026, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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