Hortas, Sangue e Silêncio: A (in)comunicação de um Estado em crise— TELMA BENJAMIM TAERO

A comunicação de um Chefe de Estado não é apenas uma questão de retórica ou oratória. É, acima de tudo, um instrumento estratégico da política interna e externa. Actualmente, a comunicação institucional moçambicana enfrenta desafios significativos.

As vozes da liderança moçambicana, nos últimos anos, têm sido marcadas por discursos polémicos, contradições públicas e visíveis lacunas comunicacionais. Moçambique não está a saber comunicar, e este não é um problema recente. Todavia, sem ignorar um passado que já não pode ser corrigido, importa olhar para aquilo que ainda pode ser resolvido.

Em Fevereiro de 2025, o Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, proferiu um dos seus primeiros grandes discursos públicos como estadista, em Cabo Delgado, concretamente na cidade de Pemba. Na ocasião, ao abordar a necessidade de “defender a pátria”, declarou: “Aqui em Cabo Delgado, mesmo se for para jorrarmos sangue para defender essa pátria contra as manifestações, vamos jorrar sangue. Vamos combater o terrorismo, vamos combater os Naparamas e vamos combater as manifestações”.

Um discurso duro, violento e rapidamente conotado como “sanguinário”. Uma postura interna feroz.

Como internacionalista, sinto-me segura em afirmar que este discurso, por si só, não representa o problema na sua totalidade. O problema está no timing, no contexto nacional em que foi proferido, na audiência a quem se dirigia e, naturalmente, nas implicações jurídico-políticas que carrega.

Primeiro, um dos primeiros discursos públicos de um Chefe de Estado não deveria ter uma natureza tão agressiva, sobretudo num país que, formalmente, não se encontrava em guerra civil.

Segundo, comunicar em contexto de crise exige prudência institucional. Não basta dizer apenas aquilo que é lícito dizer; importa também compreender aquilo que convém comunicar.

Terceiro, há necessidade de estudar a audiência. Falava-se para um povo ressentido pela crise pós-eleitoral, marcado por frustrações sociais acumuladas, por um histórico de marginalização estrutural e profundamente afectado pelo terrorismo em Cabo Delgado. Este é um povo que, claramente, não está preparado para ouvir a palavra “sangue” num discurso presidencial.

Por fim, as manifestações constituem um direito constitucionalmente consagrado nos termos do Artigo 51 da Constituição da República de Moçambique, relativo à liberdade de reunião e manifestação. Daí surge uma questão inevitável: estaria o Presidente a referir-se às manifestações violentas? Talvez. Mas, numa comunicação institucional séria, talvez não devesse haver espaço para ambiguidades desta dimensão.

O que se percebe, no fundo, é uma lógica de primazia da sobrevivência do Estado e da manutenção da estabilidade interna, mesmo que isso aconteça em detrimento da segurança dos indivíduos.

Como realista, compreendo parcialmente esta visão. Contudo, o Estado sem povo também não sobrevive. E é precisamente aí onde reside a fragilidade do discurso. Afinal, de quem seria o sangue a ser derramado? Dos terroristas? Dos Naparamas? Dos manifestantes? Do próprio povo? Há questões que precisam de maior reflexão política e institucional.

Não obstante, no mês de Maio do corrente ano, assiste-se a uma nova sequência de discursos polémicos, agora com uma conotação pública igualmente antipática. Durante a sua visita de trabalho à vizinha África do Sul, nos dias 5 e 6 de Maio, o Presidente da República declarou que “nenhum moçambicano foi afectado pela xenofobia na África do Sul” e que “não há registo oficial de moçambicanos mortos ou feridos resultantes desse fenómeno”. Acrescentou ainda: “Não se responde violência com violência, não se responde ódio com ódio”.

Um discurso pacífico no exterior.

Nota-se aqui uma mudança evidente de postura discursiva. Parte-se de uma diplomacia interna coerciva para uma diplomacia externa moderada e pacificadora. A questão central é: qual é o custo-benefício desta postura?

Por um lado, o Governo afirma que não existem moçambicanos afectados pela xenofobia e sugere que muitas imagens em circulação correspondem a episódios antigos. Por outro, multiplicam-se relatos e apelos de socorro de cidadãos moçambicanos residentes na África do Sul, denunciando episódios de violência e hostilidade contra estrangeiros, incluindo moçambicanos. Afinal, o que está realmente a ser comunicado?

O povo interpreta este vazio de resposta como falta de empatia. Já o Governo parece entender que existem interesses estratégicos que não podem ser colocados em causa através de discursos agressivos contra um Estado vizinho com o qual Moçambique mantém uma relação bilateral profundamente assimétrica e interdependente.

Mais uma vez, como realista, consigo compreender parcialmente esta postura. Moçambique depende economicamente da África do Sul em vários sectores fundamentais. A África do Sul continua a ser um dos principais mercados da electricidade moçambicana; Moçambique depende de receitas provenientes dessa cooperação económica e depende igualmente da importação de bens alimentares sul-africanos. Portanto, dentro de uma lógica puramente realista, surgiria uma questão desconfortável: o que representa a segurança de cerca de 18 mil moçambicanos na África da Sul face à estabilidade económica de mais de 30 milhões de habitantes em território moçambicano?

Todavia, esse não é o verdadeiro centro do debate. A grande questão continua a ser: como comunicar?

Uma semana depois, a 11 de Maio, surge outro discurso polémico. Ao abordar a subida do custo de vida e dos combustíveis, o Presidente afirmou: “Quando sobe o preço do combustível, sobe o preço do transporte, sobe o custo de vida, sobe o preço dos alimentos. Voltemos a cultivar alimentos nos nossos quintais; aqueles que já têm pavês, que os retirem e façam canteiros”.

Naturalmente, a declaração foi recebida com ironia e sarcasmo por parte significativa da população. Para muitos, a mensagem transmitia quase uma ideia de retrocesso social. Afinal, quantos cidadãos lutam diariamente durante anos para conseguir pavimentar os seus quintais? Será justo que, diante da crise económica, tenham de desfazer aquilo que conquistaram com enorme esforço? Será correcto colocar o cidadão na posição de escolher entre alguma dignidade material e o pão de cada dia?

Entretanto, o povo não é responsável pela subida do custo de vida. E também não parece razoável ignorar que conflitos internacionais, como a instabilidade no Médio Oriente e os impactos no estreito de Ormuz, inevitavelmente produzem efeitos em cadeia sobre os combustíveis, os transportes e os preços dos bens essenciais.

Por outro lado, surgem igualmente dúvidas sobre as respostas económicas adoptadas. Fala-se constantemente em subsídios aos transportadores públicos, mas pouco se discute sobre subsídios aos distribuidores de combustível, ajustes nas taxas de importação, redução de encargos aduaneiros ou medidas estruturais que aliviem a economia no seu todo, e não apenas sectores específicos. Talvez, em circunstâncias diferentes, o cidadão não precisasse de transformar pavês em hortas para sobreviver.

Dando continuidade a esta sucessão de declarações controversas, no dia 13 de Maio, durante uma auscultação pública em formato de comício, o Presidente da República declarou: “Não é para vir aqui dizer que o meu marido me bateu à noite. Esse não é problema do povo; esse é problema seu e do seu marido. Vão resolver lá em casa. Nós queremos ouvir preocupações do povo”.

Este discurso talvez seja dos mais problemáticos. Não apenas porque toca numa questão extremamente sensível para milhares de mulheres moçambicanas, mas porque expõe algo ainda mais grave: o colapso da sensibilidade comunicacional do próprio aparelho institucional do Estado.

Se Moçambique continua entre os países africanos com elevados índices de violência doméstica, então como afirmar que este não é um problema do povo? Não parece coerente. Violência doméstica é, precisamente, um problema social, público e estrutural.

É neste ponto que a questão deixa de ser apenas retórica mal conseguida. O problema passa a ser institucional. Estes discursos não são apenas falhas ocasionais de comunicação. São sinais evidentes de ausência de coordenação discursiva, de insuficiente gestão de crise e de fragilidade estratégica na comunicação do mais alto órgão da política interna e externa do Estado.

Hoje, qualquer frase presidencial é rapidamente recortada, difundida e reinterpretada em segundos. Vazios de informação são preenchidos por ruído. Explicações tardias já não conseguem corrigir os danos políticos e emocionais causados pela primeira mensagem transmitida. Porque comunicar é muito mais complexo do que simplesmente falar. E comunicação institucional exige ainda mais responsabilidade.

Em suma, uma comunicação institucional eficaz exige verdade, clareza, empatia e capacidade de gestão de crises. Embora alguns dos episódios analisados antecedam a actual estrutura da Presidência da República e do seu Gabinete de Comunicação, a persistência de polémicas recorrentes e as dificuldades de enquadramento institucional demonstram que os desafios da comunicação presidencial em Moçambique permanecem longe de estar resolvidos.

©TELMA BENJAMIM TAERO *

*Licenciada em Relações Internacionais e Diplomacia pela Universidade Joaquim Chissano

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 12 de Junho de 2026.

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